quinta-feira, 2 de junho de 2011

A dureza da noite no sofá

Dora Lira


Coisinha difícil é conviver, é viver com, por mais que a gente se esforce fale o que nos incomoda e até onde vai o direito do outro rente a nossa sociedade conjugal, sempre está ele ali, insistindo em nos incomodar com manias mais manjadas e mais antigas que as receitinhas de remédio caseiro da minha avó.  E não adianta esbravejar ao extremo ou achar que vai passar e que de um dia para o outro nosso querido consorte vai mudar e se moldar aos nossos caprichos. Diante daquele arranca rabo pelos motivos mais banais que sempre crescem e viram um monstro, o jeito é relutar contra instintos mais animalescos que nos mandam trucidar o outro... Calma, não é por ai!
Eis que num desses dias de inferno conjugal eu descobri uma solução. Irritadíssima com o meu maridinho, descobri o tormento que o fiz passar em várias noites, algumas seguidas, inclusive, de sono no sofá. Optei por abandonar nossa cama box king para me contentar com aquele móvel vermelho do canto da sala. Sim, fui abraçar as almofadas e “dormir” no sofá, pois se eu visse meu esposo perto de mim por mais dez minutos eu poderia ser em breve encarcerada por umas duas décadas (exagero meu, duvido que com as tais progressões de pena alguém fique tanto tempo assim preso no Brasil).
Mas, voltemos à idéia magnífica... Pensei nesses casais modernos que fazem suas trouxinhas, decidem fazer um “teste drive” e ir morar juntos por tempo indeterminado, acontece que no tempo indefinido e durante a primeira briguinha besta, eles descobrem que para serem companheiros reconhecidos na tal união estável - coisa moderna essa, no tempo que eu casei não existia isso – eles nem precisam morar debaixo do mesmo teto. Embora eles adorem o fiel cumprimento de certos deveres conjugais, um não suporta mesmo a cara do outro. Então, para que morar junto todos os dias e correr o risco de amanhecer com torcicolo pela dureza da noite no sofá?
Espere ai, não imagine, leitor apressado, que eu tenha tido a petulância de chegar para o meu maridinho querido com a proposta de morarmos em lares separados. Isso não! Mas descobri meios de economizar com terapeutas e com remédios para dores. Hoje em dia aqui em casa é assim: a gente briga, torce o nariz, mas ninguém vai dormir no sofá. E sabe por quê? Depois de muita conversa e umas mudanças, a nossa casa perdeu uma dispensa e ganhou mais um quarto. Um quarto bicolor, bidecorado, bipovoado, birrefugiário, um quarto uno de dois universos. Cada vez que aquele marrento me provoca ou que o teto dá sinais de que vai desabar na minha cabeça, estou eu lá, firme e forte entre meus livros, telas, CDs e DVDs. Tranqüila, sabendo que depois de uma noite bem dormida, vai ser facinho encarar mais uma DR -mania moderna masculina essa de discutir a relação- e ainda há quem abra a boca para dizer que isso é “coisa de mulher”. 
* Na verdade, a autora não é casada, recorreu à personagem como meio de através deste recurso estilístico mostrar um ponto de vista feminino numa relação conjugal.

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