quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Anacronismo


           O ônibus das cinco horas seguia rumo ao interior cheio de jovens. Uns voltando da escola, outros tantos voltando do trabalho. E cada um submerso em seu mundo. Entre eles, na segunda poltrona, havia um senhor que se destacava: usava um chapéu de massa com uma peninha vermelha assanhada na lateral, tinha a roupa desgastada, um rosto cansado por trás da barba por fazer e um brilho lacrimal nos olhos. Falava. Falava muito com o desconhecido que sentara por acaso do seu lado. Falava, na verdade, como que estivesse palestrando para uma platéia ansiosa por ouvi-lo. E, querendo ou não, todos que estavam ali eram espectadores de seu discurso, ora rechaçado, ora aplaudido, no silêncio íntimo de cada um.
            Mesmo as adolescentes sentadas mais ao fundo do ônibus, apesar de estarem com o celular ligado ao som do “trepa-trepa” hit do momento, podiam ouvir aquele velho e sorrir de sua conversa sobre tempos de fartura de água limpa no riacho; dos potes que carregou cheio delas; do hábito de entrar pelos corredores da casa, caso houvesse alguma visita em conversa com a família na sala e até da submissão feminina imposta pela sociedade patriarcal.
            - Se algum da gente beijasse uma moça ela levava uma surra do pai. Naquele tempo existia o respeito, sabe como é, né?
             De tudo que o velho falava, eu podia sentir pelo seu timbre, mesmo distante de seu olhar, o pesar de se sentir um anacronismo. Falava da juventude e dos tempos modernos com aspereza, com o desprezo de quem aprendeu diferente.  Ao fim sentenciou com subjetividade disfarçada, em tom de melancolia:
            - Um filho sai de sua casa e vai pra longe pra ter a desculpa de não voltar, ele tem nojo de sentar na sua mesa.
            Fez-se o silêncio.
      

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